Especialistas alertam e apontam soluções para a segurança digital de crianças e adolescentes
O Conexidades iniciou a sexta-feira com o painel Combate à Violência em Ambiente Digital Contra Crianças e Adolescentes, coordenado por Rafael Zimbaldi, Deputado Estadual (SP) e Autor da Frente Parlamentar de Combate à Violência em Ambiente Digital contra Crianças e Adolescentes. Participaram ainda Carla Albuquerque, Jornalista investigativa e especialista em crimes digitais; Carolina Defilippi, Advogada Criminalista e Especialista em Segurança Digital; Michele Achcar Colla de Oliveira, Advogada Especialista em Direito Administrativo e Legislativo e Ana Carolina Oliveira, Vereadora de São Paulo.
Rafael Zimbaldi explica que teve a iniciativa de criar a Frente Parlamentar após assistir uma entrevista com Carla Albuquerque sobre os perigos da rede digital. “Enquanto nós estamos aqui, com certeza alguém está praticando um crime e alguém está sendo vítima digital. Muitas vezes a gente acha que a criança está segura dentro de casa. E muitas vezes a gente sabe que essa falsa segurança não é o que está acontecendo”, afirma.
Ana Carolina Oliveira, por sua vez, afirma que a pauta é relevante para todos os brasileiros. “Às vezes com um conteúdo simples a gente expõe, até dentro da nossa casa, os nossos filhos, filhos de amigos, pessoas próximas, e isso de forma sucinta. Só que os predadores, os pedófilos, esse meio digital que incentiva isso, estão sempre atentos. Desatentos somos nós, que achamos que esse conteúdo não vai ser algo que impacte”, alerta, completando que as crianças são expostas em situações comuns como na praia, troca de fraldas, ou fazendo danças na internet. “Essas pessoas estão nas redes e estão preparadas pra isso, e isso virou uma rede milionária”, completa.
Zimbaldi explica que iniciou o processo da Frente Parlamentar em 2019 com uma proposta de lei que é criar a cidadania digital nas escolas públicas e privadas do Estado. A finalidade da Frente é fazer um trabalho de conscientização dos pais, das crianças e dos profissionais da educação. Dentre as propostas estão o monitoramento de abusos praticados nas plataformas, a cobrança de transparência das big techs e a moderação adequada ao público infanto-juvenil.
A seguir, Michele Achcar Colla compartilha sua experiência particular com seus dois filhos de três e dez anos, contando que, para a criança de 10 anos, a própria convivência com os colegas leva a essa interface e que é onde os pais e juristas podem agir. “Não podemos polarizar o tema. Temos que entender quais são as possibilidades, quais são os desenhos estratégicos legais possíveis para avançar em termos de regramento, de normatização, de moderação das redes sociais para que possamos de fato proteger as nossas crianças”, diz.
Carolina Defilipp destaca que o mundo virtual é mais perigoso do que aparenta. “Quando permitimos que nossas crianças e adolescentes se conectem, ou quando nós mesmos nos conectamos, nós temos que ter a consciência de que estamos andando numa rua com outras 4 bilhões de pessoas”. Segundo a advogada é uma ilusão achar que quando uma criança ou adolescente entra na internet para realizar diferentes tarefas, como fazer uma pesquisa, jogar ou acessar uma rede social, ela está segura só porque está dentro de casa. Pelo contrário, as crianças ficam expostas a diversos perigos e a predadores.
Defillip declara ainda que é necessária uma união que busque soluções para um combate eficaz a esses crimes e lembra que a criança não tem o córtex pré- frontal preparado para tomar decisões no mundo digital, então cabe aos adultos protegê-los. Ela defende a implantação da disciplina Cidadania Digital nas escolas, para que crianças e adolescentes saibam fazer o uso seguro da internet. A especialista, no entanto, lembra que a internet é uma ferramenta e que a intenção não é demonizá-la. “A maioria de nós é de uma geração de imigrantes digitais. Viemos de um mundo analógico para um digital e a internet nos deslumbrou. Vimos muitas coisas boas, mas não vimos, num primeiro momento, todos esses perigos. E hoje, com todos os estudos, nós conseguimos perceber esses perigos”, afirma.
A próxima pessoa a dar suas considerações foi Carla Albuquerque que, apesar de ser jornalista investigativa há 18 anos, afirma nunca ter visto crimes tão horríveis quanto àqueles do ambiente digital. Ela lembra que essa situação afeta todas as classes sociais e que as plataformas preferidas dos abusadores são o Discord, o Telegram, o Roblox e o Instagram. “A gente vai encontrar esses criminosos em todos os ambientes digitais”, alerta. “O anonimato é perfeito para que esses crimes aconteçam”, completa.
Albuquerque vai além: “Quando a gente fala em violência nesse ambiente estamos falando em pessoas que foram dessensibilizadas, tanto o agressor quanto a vítima. São pessoas que estão viciadas em violências”, explica, com a experiência de quem já entrevistou mais de cem agressores e muitas vítimas. De forma didática a jornalista fala que nesse universo é preciso entender a escala da evolução criminal: o criminoso evolui à medida que comete um crime e não é parado. Lembra ainda que nesse universo existem grupos fechados de extremistas, homofóbicos, misóginos e racistas. Animais são mortos de forma sádica em vídeos que são expostos nas redes sociais. Essa dinâmica vai evoluindo até gerar os massacres. “Eles querem deixar a marca do horror, e essa marca é pesada demais”, desabafa.
Albuquerque diz ainda que as plataformas não colaboram como deveriam, e que 60% dos agressores e vítimas estão localizados no interior dos Estados. “Jovem não lê jornal e não vê tv. Eles vão buscar informação dentro das plataformas”, explica, lembrando que as plataformas disseminam desinformação. “Cada vez que entramos dentro dessa plataforma, nós entregamos o que temos de mais precioso: nossos dados”, destaca completando ainda que não sabemos a forma de utilização desses dados, pois não existe transparência.
Para ilustrar o debate, foi exibido um vídeo editado de conteúdo sensível recolhido na rede. A jornalista conta que o menor infrator, neste caso, estava em Mauá, enquanto a vítima se localizava no interior do Rio Grande do Sul, dessa forma mostrando que ninguém está imune ao que ocorre nesse ambiente. Aqueles que tentam lutar contra isso também sofrem com ameaças. Mais um alerta da especialista: não são somente as meninas que sofrem esse tipo de abuso, os meninos também sofrem, principalmente aqueles no espectro autista.
“Quando isso chega na área da segurança pública é porque todos nós já falhamos”, argumenta. “Quando um jovem é dessensibilizado, a recuperação desse jovem é muito complicada. Ele perdeu a infância e a adolescência para esse universo perverso”, finaliza.
O 8º CONEXIDADES é apresentado por Multiplicidades e UVESP, com correalização da Prefeitura Municipal de Holambra. Conta com o patrocínio de OM30, Mêntore Bank, Grupo Wolf, CREFITO-3, Águas de Holambra, PRODESP, SEBRAE, SERPRO E SABESP. Tem o copatrocínio da Caixa Econômica Federal e do Governo Federal – Brasil: União e Reconstrução. Recebe apoio educacional do SENAC, da FDE e da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, além do apoio do Governo do Estado de São Paulo, do Banco do Brasil e do Governo Federal – Brasil: União e Reconstrução.
