Usina pioneira em Barueri transformará lixo em energia para 75 mil residências

Município contará com a primeira unidade de recuperação energética da América Latina

Barueri se prepara para um novo capítulo na gestão de resíduos sólidos urbanos no Brasil. Prevista para 2027, a Usina de Recuperação Energética – URE do município será a primeira planta Waste-to-Energy – WtE da América Latina, ou seja, que converte resíduos em energia utilizável. O projeto, desenvolvido pelo Grupo Orizon em parceria com a Sabesp, promete reduzir em até 90% o volume de lixo encaminhado a aterros sanitários.

Com capacidade para processar 870 toneladas de resíduos por dia, o equivalente a 300 mil toneladas anuais, a usina transformará o lixo de cerca de 850 mil habitantes em energia elétrica renovável. Além disso, a instalação terá potência de 20 MW, com exportação média de 16 MW ao Sistema Interligado Nacional, suficiente para abastecer mais de 75 mil residências.

O desafio da gestão de resíduos no Brasil

A relevância do projeto ganha proporções ainda maiores quando se observa o cenário nacional. Segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2024, elaborado pela Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente – ABREMA, o Sudeste é a região que mais produz lixo no país, impulsionada pelas grandes metrópoles. Somente São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte concentram milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano.

Essa quantidade impõe desafios aos municípios, como a falta de espaço para novos aterros, os altos custos de transporte, a necessidade de cooperação intermunicipal e os problemas de descarte irregular, que aumentam enchentes, doenças e emissões de gases de efeito estufa.

Nesse contexto, a recuperação energética surge como solução estratégica. As plantas WtE são compactas, reduzem a necessidade de transporte, diminuem emissões e convertem um passivo ambiental em ativo energético, contribuindo para a economia circular.

Barueri como modelo e tendência no país

A URE de Barueri é o primeiro passo de um movimento que deve se expandir nos próximos anos. Projetos semelhantes estão previstos para Mauá e Campinas, assim como Seropédica (RJ) e Brasília. A Associação Brasileira de Recuperação Energética – Abren estima que o setor pode movimentar até R$ 145 bilhões em 12 anos.

Apesar do avanço, o país ainda enfrenta entraves. Segundo Jorge
Elias, políticas públicas claras e de longo prazo são essenciais. “Os investimentos em valorização energética de resíduos possuem características de investimentos em infraestrutura; desta forma, os principais drivers que permitiriam maior velocidade na ampliação da valorização energética dos resíduos seriam políticas públicas de médio e longo prazos priorizando o aproveitamento energético dos resíduos de maneira a dar segurança regulatória para o desenvolvimento destas soluções”.

Ele lembra que o caráter inédito do projeto representa um desafio adicional. “A iniciativa propõe uma mudança significativa na gestão dos resíduos urbanos, ao transformar resíduos sólidos em energia elétrica despachável. Além de oferecer uma solução sustentável, o projeto converte um passivo ambiental em energia limpa, beneficiando as cidades de Barueri, Carapicuíba e Santana de Parnaíba. Com isso, contribui para a geração de empregos e o desenvolvimento regional”, finaliza. 

Tecnologia e segurança ambiental

A URE utilizará a tecnologia Mass Burning, adotada em países como Japão, Alemanha e Estados Unidos e reconhecida por seu rigor técnico e elevado padrão de segurança. O processo consiste na queima controlada dos resíduos, seguida de um sistema robusto de filtragem e tratamento dos gases. As cinzas resultantes tornam-se inertes e podem ser destinadas de forma ambientalmente adequada.

“A tecnologia utilizada pela URE-Barueri se caracteriza como uma alternativa segura e eficaz para regiões com alta densidade populacional e espaço reduzido para tratamento de resíduos, com potencial de ser replicado para outras regiões com características semelhantes”, afirma o diretor de Engenharia do Grupo Orizon, Jorge Elias.

Para ele, além de tratar o resíduo de forma adequada, a solução permite o aproveitamento energético junto ao centro consumidor, oferecendo geração contínua e previsível, algo relevante diante do crescimento das fontes intermitentes no sistema elétrico nacional. “Somos precursores ao implantar essa solução, o que nos posiciona, de forma estratégica, para futuras oportunidades do setor”, acrescenta.