
Estudo do Seade revela inversão histórica no fluxo migratório e aceleração do envelhecimento populacional
Ao longo de um século, o Estado de São Paulo passou por transformações profundas em sua dinâmica populacional. Um estudo recém-lançado pela Fundação Seade traça esse percurso de 1920 a 2022 e revela uma verdadeira reconfiguração geográfica, econômica e etária da população paulista. O levantamento mostra que a capital, que por décadas concentrou o crescimento e atraiu grandes fluxos migratórios, perdeu gradualmente seu papel central. Hoje, o protagonismo populacional está nas mãos do interior, que avançou em infraestrutura, desenvolvimento econômico e qualidade de vida.
Segundo a gerente da área demográfica da Fundação Seade, Bernadette Waldvogel, a reorganização começou a se desenhar ainda na década de 1970. Até então, São Paulo capital era o grande polo de atração do Estado, recebendo fluxos migratórios vindos de todo o Brasil e até de áreas rurais paulistas. O crescimento vertiginoso da metrópole foi impulsionado por uma urbanização acelerada e pela industrialização precoce, o que atraiu milhões de pessoas em busca de oportunidades.
No entanto, esse movimento sofreu uma inflexão. “A partir da década de 1970, a dinâmica espacial começava a mudar radicalmente. A capital, com crescente complexidade urbana – inflação, desemprego, congestionamentos, aumento do custo de vida – inicia um processo de saturação e perda de atratividade relativa, enquanto o interior se desenvolve e passa a atrair os migrantes”, afirma Waldvogel.
A pesquisa indica que entre 1980 e 2010, ocorreu uma inversão significativa: a capital passou a registrar saldos migratórios negativos, enquanto o interior cresceu em ritmo acelerado. As causas dessa mudança são múltiplas, conforme explica Waldvogel: “Investimentos estratégicos em infraestrutura viária estadual (como os sistemas Anhanguera-Bandeirantes, Presidente Dutra,
Castelo Branco, Imigrantes) e a expansão de polos de ensino superior e pesquisa (como a Unicamp
em Campinas) criaram as condições para a interiorização do desenvolvimento econômico e, consequentemente, do crescimento populacional. Diversos polos regionais começaram a emergir com maior dinamismo no interior, associados a fatores de natureza tecnológica e industrial, como foi o caso das regiões de Campinas e São José dos Campos, beneficiadas pela proximidade da capital, infraestrutura moderna e presença de universidades de ponta, tornando-se centro de inovação e indústria diversificada”.
A Baixada Santista, por sua vez, manteve seu papel estratégico como centro logístico e industrial, com destaque para o porto de Santos e o polo de Cubatão. Outros polos emergentes ganharam espaço graças à força do agronegócio e à ampliação dos serviços qualificados. Ribeirão Preto, São José do Rio Preto e Bauru são exemplos emblemáticos dessa nova geografia demográfica paulista, onde a modernização agrícola — com destaque para a cana-de-açúcar e a laranja — foi acompanhada por avanços nos setores de saúde, educação e comércio.

Análises e tendências
A última parte do estudo aponta que, de forma inédita, entre 2010 e 2022, o Estado de São Paulo como um todo registrou saldo migratório negativo. A principal responsável foi a capital, que manteve um número elevado de saídas de moradores, não mais compensado pelas entradas ou pelos ganhos do interior. O crescimento populacional no período foi mínimo, sustentado exclusivamente pelos avanços ainda modestos do interior.
Esse processo está intimamente ligado à chamada transição demográfica. O estudo do Seade mostra que, nas últimas décadas, a taxa de fecundidade no Estado caiu de forma contínua e atingiu níveis abaixo da taxa de reposição já no início dos anos 2000. Paralelamente, a longevidade aumentou, resultando em uma população mais envelhecida. Em 1991, os idosos representavam 7,7% da população. Em 2022, esse índice saltou para 17,2%. “Provavelmente a nova realidade demográfica paulista, com crescimento baixo ou quase nulo, envelhecimento populacional acelerado, redistribuição contínua da população para o interior e maior complexidade e heterogeneidade regional, deve permanecer no futuro”, aponta Waldvogel. A tendência é que futuro demográfico paulista, portanto, seja pautado por um crescimento populacional muito mais lento, um interior cada vez mais robusto e uma população em processo acelerado de envelhecimento, o que deve impactar em futuras políticas públicas. “Talvez o saldo migratório deixe de ser negativo nas próximas décadas, mas dificilmente voltará a registrar valores positivos importantes como ocorreu no passado”, conclui Waldvogel.
