
Cidades investem em tecnologia, arborização e ação local contra temperaturas extremas
De sensores a inteligência artificial, grandes metrópoles repensam o combate às ilhas de calor
As ondas de calor deixaram de ser um fenômeno sazonal e passaram a fazer parte da rotina urbana — até em regiões mais frias do planeta. No entanto, dentro de uma mesma cidade, nem todos sentem o calor da mesma forma. Estudos mostram que a diferença de temperatura entre duas ruas próximas pode ultrapassar cinco graus, dependendo da quantidade de asfalto, tráfego e áreas verdes disponíveis.
Essas variações criam as chamadas “ilhas de calor urbanas”, áreas onde o acúmulo de concreto e a ausência de vegetação elevam significativamente a temperatura. O problema é global, mas as soluções começam em nível local: entender o território, medir o calor e intervir onde o desconforto térmico é mais intenso.
Boston, nos Estados Unidos, virou símbolo desse debate ao instalar sensores em bairros vulneráveis. Os dispositivos mostraram que ruas arborizadas podem ser até 5 °C mais frias do que avenidas asfaltadas. A experiência inspira outras cidades a combinar dados científicos e participação comunitária no enfrentamento do calor extremo.
Tecnologia a serviço do verde
Em São Paulo, a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente SVMA está utilizando ferramentas tecnológicas de última geração para transformar a forma como se planeja a arborização. Segundo o secretário municipal da pasta, Rodrigo Ashiuchi, a inovação é peça central desse processo.
“A Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente está implementando a Ação 01 do Plano Municipal de Arborização Urbana PMAU, que dá início ao inventário de arborização, utilizando uma tecnologia pioneira no país e inteligência artificial que permitem o conhecimento técnico do patrimônio arbóreo da cidade e uma gestão de alta precisão do manejo das árvores, além de mapear possíveis áreas para novos plantios”, explica.
As informações do GeoSampa, plataforma de mapeamento urbano, são integradas ao sistema, permitindo cruzar dados sobre calçadas, vegetação e espaços públicos. A meta é não apenas plantar mais árvores, mas plantá-las nos lugares certos — onde possam reduzir a temperatura, reter água da chuva e oferecer sombra para pedestres.
Incentivos e participação popular
Além da tecnologia, São Paulo aposta no engajamento dos moradores. “A SVMA mantém uma Campanha Permanente de Incentivo à Arborização Urbana, por meio da qual distribui mudas de árvores para moradores interessados em realizar o plantio dentro de seus imóveis. Além disso, oferece no Portal 156 um serviço específico para quem deseja o plantio em áreas públicas, como a frente das residências. Nesses casos, a Prefeitura fornece a muda e executa o plantio”, afirma Ashiuchi.
A legislação municipal também contribui com instrumentos concretos. “A Lei nº 16.402/16 determina que as áreas permeáveis dos empreendimentos devem conter ao menos um exemplar arbóreo a cada 50 m² de área permeável projetada”, completa o secretário. Essa exigência estimula o verde privado a complementar o verde público, criando uma rede de sombreamento mais equilibrada em toda a cidade.
Vale lembrar que o avanço da arborização urbana tem impacto direto na saúde pública. A presença de árvores reduz a temperatura ambiente, melhora a umidade do ar e até diminui internações por doenças respiratórias e cardiovasculares.
“A população pode contribuir com o Plano Municipal de Arborização Urbana por meio do cadastro de interessados em desenvolver projetos em parceria com a Administração Municipal, como a indicação de locais para plantio, escolha de espécies e atividades de educação ambiental”, acrescenta o secretário.
Cidades que aprendem a medir o calor
O desafio das metrópoles modernas é medir o calor com precisão. As análises tradicionais, baseadas em médias de bairros inteiros, mascaram desigualdades térmicas profundas. Pesquisas recentes mostram que a diferença entre uma quadra com árvores e outra coberta por concreto pode representar riscos à saúde, especialmente para idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade.
Cidades como Miami, Singapura e Barcelona já utilizam redes de sensores para identificar áreas críticas e direcionar recursos. No Brasil, projetos semelhantes ainda são incipientes, mas começam a ganhar espaço. Em São Paulo, os dados do PMAU e da rede meteorológica municipal podem formar uma base estratégica para políticas de mitigação do calor extremo.
Essas informações podem alimentar planos de resfriamento urbano segmentado, que priorizam locais com maior densidade populacional e menor cobertura vegetal — justamente onde o impacto do calor é mais severo.