Vereadores mais velhos unem vivências e voz ativa para a criação de políticas públicas

O Brasil está passando por um processo acelerado de envelhecimento populacional. Dados do IBGE mostram que, entre 2000 e 2023, a proporção de pessoas com 60 anos ou mais subiu de 8,7% para 15,6%, o que representa 33 milhões de indivíduos. Em 2025, esse número deve se manter próximo a 31,8 milhões. Já para 2070, estima-se que quase 38% da população brasileira será idosa, o que exigirá adequações importantes nas políticas públicas e na representatividade política.

No cenário municipal, o envelhecimento populacional já é visível nos quadros do Legislativo. Ainda que a idade média dos vereadores em 2025 seja de 44,6 anos, de acordo com o Congresso em Foco, é comum encontrar em pequenas e médias cidades parlamentares com mais de 65 anos, muitos deles exercendo mandatos consecutivos. Em regiões onde o capital político individual é mais relevante que as alianças partidárias, há câmaras municipais em que a maioria dos vereadores ultrapassa os 70 anos.

  • A experiência como ativo político

A atuação de parlamentares mais velhos tem se mostrado estratégica na formulação e execução de políticas públicas, sobretudo na defesa dos direitos da população idosa. Para a vereadora Sonia Beolchi, de Ibirá, com 79 anos e cinco mandatos, a trajetória acumulada é um diferencial no trabalho legislativo.

“A experiência é um pilar fundamental dentro da Câmara. Vereadores com mais tempo de vida pública contribuem com equilíbrio, senso de responsabilidade e conhecimento prático. Eles conhecem a legislação, os caminhos do orçamento e, principalmente, têm a sabedoria de ouvir antes de agir”, afirma.

Já Roselvira Passini, de Itatiba, entrou na política aos 72 anos e exerce hoje seu segundo mandato, com 81 anos. A parlamentar avalia que a vivência acumulada proporciona clareza e foco nas decisões. “Sem os arroubos da juventude, a gente pode ter um pouco mais de clareza no que é possível dentro da política e o que não é. Tudo fica um pouco mais claro e a gente pode fazer os projetos com mais segurança”, afirma.

  • Voz ativa nas pautas da terceira idade

Com o aumento do número de idosos no país, cresce também a demanda por políticas públicas voltadas a esse grupo. Questões como mobilidade urbana, saúde preventiva, convivência social, acessibilidade e segurança são cada vez mais citadas em projetos e propostas legislativas apresentadas por vereadores com mais idade.

“A presença de vereadores com mais idade ajuda a garantir que idosos não sejam invisíveis nas decisões políticas, mas sim valorizados como cidadãos plenos e merecedores de cuidado”, diz Sonia. A afirmação encontra respaldo nas projeções do IBGE: até 2070, o número de pessoas com 60 anos ou mais no Brasil pode chegar a 75,3 milhões.

A vereadora Rosa Scanavini, de Araras, que está em seu primeiro mandato aos 69 anos, avalia que essa representatividade é fundamental para uma política pública mais inclusiva. “Vereadores com mais idade contribuem e muito, pois sempre procuram adotar práticas participativas e ajudam a criar um ambiente legislativo mais empático, acessível e representativo para a terceira idade”.

  • Projetos institucionais ampliam a participação dos idosos

Além da atuação direta no parlamento, diversas cidades têm adotado programas que estimulam a participação cidadã da terceira idade, como as iniciativas “Câmara do Idoso” e “Vereador Sênior”. Essas ações funcionam como conselhos consultivos, que promovem formação política, combate ao etarismo e protagonismo social entre os mais velhos.

A experiência de Rosa com a Câmara Jovem de Araras, por exemplo, ilustra como a integração geracional pode ser promovida por meio de ações estruturadas. “Criar canais permanentes como conselhos juvenis ou audiências temáticas incentiva que jovens sejam ouvidos ao longo do mandato e não apenas em eventos pontuais”, afirma. A vereadora defende que o mesmo princípio seja aplicado para o público idoso.

  • A integração entre gerações no Legislativo

A convivência entre vereadores jovens e mais experientes é um ponto ressaltado pelas três parlamentares. Todas destacam que a política municipal se fortalece quando há diálogo e respeito entre diferentes faixas etárias.

“Eu acho imprescindível trazer a juventude para a política. Ela tem uma força, um entusiasmo e um conhecimento das novas tecnologias que nós não temos”, destaca Roselvira Passini. “A soma da experiência dos mais velhos com o entusiasmo da juventude facilita as mudanças que a sociedade precisa.”

Esse equilíbrio, no entanto, exige disposição de ambas as partes para reconhecer limites e valorizar competências distintas. “A gente tem que ter bastante equilíbrio com relação às nossas possibilidades, saber o que pode oferecer e o que tem dificuldade de acompanhar”, diz Roselvira.

  • Legados e lições da maturidade política

Ao refletirem sobre seus legados, as três entrevistadas indicam um objetivo comum: mostrar que a idade não é impedimento para a atuação pública. “Nunca é tarde para aprender e para servir”, afirma Sonia Beolchi, que defendeu causas como o Estatuto do Idoso, políticas ambientais e programas para juventude em seus mandatos.

Roselvira Passini enfatiza que a causa animal, o meio ambiente e a cidadania são as bases de sua atuação: “se pelo menos uma pessoa entender que cada um de nós tem uma missão na vida e que ela é imprescindível e única, eu já
fico feliz”.

Rosa Scanavini, por fim, espera ser lembrada pela contribuição à eficiência da gestão pública: “quero ser lembrada por fortalecer uma gestão pública eficiente, transparente e comprometida com o bem-estar coletivo”.